terça-feira, 25 de agosto de 2009

Política sem ética

CARLOS ALEXANDRE Correio Braziliense, 25 de agosto de 2009


Até semana passada, Aloizio Mercadante acreditava que a ética ainda tinha algum significado na arena de Brasília. Os interesses em jogo para a eleição de 2010 atropelaram as convicções do senador, obrigado a engolir as próprias palavras e a protagonizar um dos momentos mais vexatórios para o PT. Houve quem dissesse que o PT jogou a ética no lixo e que deveria buscar outro sentido para sua mensagem.

Talvez o apelo tenha alguma lógica, pois de fato o discurso em defesa da moralidade na política não condiz com o atual perfil do Partido dos Trabalhadores. Os tempos são de política bruta, sem pruridos ideológicos ou justificativas ao eleitor. A estratégia do Planalto e da cúpula do PT obedece ao preceito de que é preciso dar continuidade ao projeto de Luiz Inácio Lula da Silva, e está claro que a eleição de Dilma Rousseff e o suporte do PMDB são os sustentáculos da empreitada. A questão é definir o preço a ser pago para alcançar esse propósito.

A ética, portanto, não está em questão na crônica dos poderes. O arquivamento das investigações contra Sarney é um gesto político, não um atentado contra a decência. Sejamos honestos: ninguém no Senado está preocupado em moralizar a administração federal, promover a correta gestão do dinheiro público, encerrar a bandalheira de cargos com apaniguados e parentes, algumas das práticas atribuídas à gestão de Sarney. No Congresso de hoje, não há espaço para essa discussão.

Como observou o presidente do PT, Ricardo Berzoini, o Conselho de Ética do Senado é um foro eminentemente político, no qual a oposição estava mais empenhada em desestabilizar a aliança governista do que em patrocinar uma investigação isenta ou preservar valores como decoro e moralidade. E que por essa razão o partido votou em favor de Sarney.

Concordo com a frase de Berzoini, mas por outro motivo. Alguém por acaso lembra de algum parlamentar punido por razões éticas no Congresso? Aqueles que renunciaram ao cargo ou se submeteram à cassação foram vítimas de circunstâncias políticas, não de um movimento moralizador. A ética já foi para o lixo há um bom tempo. Só os desavisados do PT é que não viram.

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